sexta-feira, fevereiro 29, 2008

verão

nuvem parada
a-ver-o-mar
areia mexida

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

ainda o tempo

será que eu sabia desde antes de acontecer
que o tempo vale a pena apenas quando está por acabar?
será?
Ouvindo por tantos dias, desde que nasci, que
quase nada valia a pena: "não vale a pena",
sempre, sem saber, esperei o tempo estar quase a
terminar para vivê-lo como se valesse à pena.
Assim:
sentir o gosto da comida - assim que se chegasse na última garfada.
dançar com muita vontade - assim que o sol começasse a nascer.
dormir tranqüilamente - assim que se estivesse no último sono.
Acordar – assim que as costas não mais agüentassem o horizonte.
Assim por diante.
Mas, eu não sabia que, tal jeito de viver a vida seria, finalmente, vivido
por aquele que tantas vezes viveu e anunciou: “não vale a pena”.
Quase aos setenta ele passou a viver a vida como se o tempo estivesse preste a terminar.
Mas como eu poderia saber antes dele, ele que quase tudo me ensinou, que as coisas valem a pena quando o tempo está quase a terminar?
Como eu poderia saber antes de ele ter vivido o “vale a pena” ao ver o seu tempo quase a terminar ?
como?

domingo, fevereiro 10, 2008

"matar o tempo antes que ele te mate"

eu não sei matar o tempo
só o sei em pensamento
é um aprendizado.
é o tempo que me mata
a cada segundo que passa.

entrada ou saída


cadeira atrás de mesa


Tombos e escorregões

Saber-se capaz e desejoso de morte não dá a certeza do ato.
Aliás, você bem sabe da sua incapacidade para tal.
Mas é sempre bom lembrar que às vezes as coisas acontecem sem querer.
E normalmente, quando você as esquece.
Daí, a incapacidade se torna capaz
E de repente, ao acordar, você se encontra dormindo.
De um sono tão diferente daqueles tantos outros já conhecidos.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

entre

um é pouco
dois é demais.

domingo, fevereiro 03, 2008

descarnaval

porto alegre:
a cada esquina
um desencarnado pula carnaval
com o pouco de carne que ainda
resta em seus pés.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

e era disso que se fugia, e era isso que se procurava

"um mínimo pleno de tudo o que se pretende.
um tanto mais que der de tudo o que se quer".

(para o dia 30).

segunda-feira, janeiro 21, 2008

sem título III

e última hora é como que o tempo que existe entre
a última pose da flor depois de desabrochada e seu desaparecimento.
ou entre a lágrima que ainda disfarça e seu esfacelamento.
viajar é quase que sempre de última hora.
E última hora é como que.

domingo, janeiro 20, 2008

sexta-feira, janeiro 18, 2008

sem título I


viajar acaba por sempre fazer-se como que de última hora.


sexta-feira, janeiro 04, 2008

terça-feira, dezembro 18, 2007

da necessidade


Bispo do Rosário
(Alguém acordou o meu dia com essas palavras. Com elas eu me senti mais leve porque mais sincera e também mais apressada porque necessitada. o que importa é que o dia foi desperto. ou que fui desperta para o dia).

trem


Viernes 3 a.m.
Charly Garcia

La fiebre de un sábado azul
y un domingo sin tristezas.
Esquivas a tu corazón y destrozas tu cabeza,
y en tu voz, sólo un pálido adios
y el reloj en tu puño marcó las tres.
El sueño de un sol y de un mar
y una vida peligrosa
cambiando lo amargo por miel
y la gris ciudad por rosas
te hace bien, tanto como hace mal
te hace odiar, tanto como querer y más.
Cambiaste de tiempo y de amor
y de música y de ideas
Cambiaste de sexo y de Dios
de color y de fronteras
pero en sí, nada más cambiarás
y un sensual abandono vendrá y el fin.
Y llevas el caño a tu siena
pretando bien las muelas
y cierras los ojos y ves todo el mar en primavera
bang, bang, bang hojas muertas que caen,
siempre igual,
los que no pueden más
se van.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

cadeira só


para uma defesa:

cadeira e só.

domingo, dezembro 02, 2007

"raspas e restos me interessam"...
Cazuza

sexta-feira, novembro 30, 2007

diário de um paranóico

o silêncio. o que fazer com o silêncio?
se é com ele e por causa dele que começo a ouvir passos?
o silêncio é o escuro da voz... (o escuro. o que fazer com o escuro? se é com ele e por causa dele que começo a ver coisas? o escuro é o silêncio do olhar...),
mas, o silêncio. o que fazer com o silêncio?
até o infinito.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Escrevilendo Lautréamont ou de como perder a cabeça

Se isso me feriu.
Se isso ficou sem nome.
Se isso é um todo indizível, inescutável, intragável.
Se isso é tudo.
Se isso é, é isso.
É isso de que não se fala.
É isso que ninguém diz que é.
Esse monte de palavras cruas, doloridas, arriscadas.
Esse tanto de gestos, de fatos, de atos, de corpos.
Fazendo aquilo que se pensa, que se quer e que, por princípio, por convivência, se cala.
Esse tanto de palavras brutas, sujas, que eu não quero.
Eu não as quero ouvir.
Mas é assim.
Isso é, por princípio, assim.
Isso do não querer. Funciona assim.
Vem sem escolha, sem possibilidade para qualquer tipo de fuga ou de esconderijo.
É a escrita (e a leitura) que te guilhotina.
Você foi condenado.
Quando percebe já perdeu a cabeça.
E já fazem segundos isso.
E você nem sequer teve tempo para suspirar.
E agora já fazem minutos que você não tem mais a sua cabeça para dar conta disso que está lendo.
Você pensa (com o que ainda resta do pouco de razão que te sobrou - sem saber se isso é bom ou ruim, ainda):
"eu estava lá. Fui espiar e acabei morto. Não pude optar por não querer".
E Lautréamont diz:
"isso de querer é coisa que te colocaram na cabeça, por isso cortamos a tua cabeça".
Aí você entende que não tem mais volta.
E se não tem mais volta decide não voltar.
Na verdade você não decide nada porque acabou de ser morto por um Lautréamont que caiu não se sabe da onde e que você não viu pois estava com a cabeça coberta. Que em seguida foi arrancada, tirando-te de órbita, impedindo suspiros, palavras, ou qualquer outra coisa, como por exemplo, uma decisão.
Agora, já quase que se fecha uma hora desde que se deparou com isso.
Isso que leu, isso que tentas escrever, isso que matou tua possibilidade de verdade.
Uma brincadeira de mau gosto, alguns diriam.
Ou talvez um susto.
Daqueles que são como uma ferida.
Um susto que arde.
Poderia ser também um pacote de presente vazio.
Você abriu e encontrou: nada.
Então fechou.
E encontrou a forma que envolve o vazio.
Pareceu-te simples.
Simples como um susto: te pegaram desprevinido, você não teve tempo de pensar (perdeu a cabeça), sentiu-se ferido e ardido por alguns segundos, o coração bateu em contra-tempo, e o susto passou.
Mas você nunca mais será como era antes.
Simples.
Efêmero e indelével.
Ao mesmo tempo.
Aquilo que você jura não pensar, jura não existir, finge não acreditar, está ali.
Posto para sempre, irreversível (indelével), fugidio, escorregadio, e indizível (efêmero).
Se isso te feriu.
Isso que tentas parar de ler.
Que debocha de ti e de todo mundo.
Que queima todas as cartas que tu tinhas na manga para falar sobre.
Se isso se passa contigo.
Isso passa,
se passou por ti, já era.
Você já morreu.
E não sabe mais nada
(e espero que agora tenhas certeza de que isso é um bom sinal).
Afinal já passaram-se duas horas desde que você perdeu sua cabeça.

quarta-feira, novembro 28, 2007