sexta-feira, novembro 12, 2010

quinta-feira, novembro 11, 2010

ladainha: do registro

A cabeça torna-se feita de confusões. Ao se permitir uma sentença em meio a tantas ainda confusas, se permite, como que inseparavelmente (pague um leve dois) a própria sentença já impossível de ser resolvida. A cada nova possibilidade inventada para a dor de sentir-se irrisório, uma nova e mais forte impossibilidade.

O tempo passou. Hoje mesmo já seria tarde para fazer uma escolha que mudasse todos os rumos .

Estar em outra cidade também não seria uma saída. Já é tarde para isso. Depois de um certo tempo as apostas devem contar com o que é propício. E não é nada propício sair de casa uma hora dessas. Nesta altura, começar do zero é o mesmo que desistir.

Nem escrever parece digno.

Nem desistir.

É uma ladainha daquelas.

Um homem fede a álcool. Ele entra no trem e exige seu lugar. Um jovem sai, o homem senta. Na sua nebulosidade ele parece velho. Ele tem muitas rugas, mas tirando a nebulosidade dos olhos que o olham, ele não é tão velho. Ele tem as mãos cruzadas uma sobre a outra. Com o dedão esquerdo acaricia o dedão direito. Um grande talho meio seco, sem sangue, sem cor, provavelmente sem dor. A secura arranca não se sabe da onde meia dúzia de lágrimas.

Cada um dá o que tem pro mundo.

Pensamentos não deixam rastros nenhum. Por mais que se tente. Nem borra, nem sussurro.

Nem tentativas palavras.

quarta-feira, novembro 10, 2010

existe
de um vazio desassistido
onde nada cabe
ainda que a fumaça do vizinho,
madrugueira e periódica
insista

"A ausência de provas físicas" Gonçalo Tavares

"Como era deselegante não ver nada com tantas coisas para serem vistas, o senhor Juarroz ficava em casa, à janela, a ver as coisas do mundo.

Como era possível dentro de casa ouvir o silêncio, o senhor Juarroz abria a janela para entrarem ruídos, pois, no fundo, detestava o silêncio.

Como as mãos eram, acima de tudo, máquinas de tocar nas coisas, o senhor Juarroz, quando ficava em casa em frente à janela aberta, gostava de encostar a sua mão esquerda no vidro.

Como uma das características mais entusiasmantes do ser humano era a capacidade de cheirar e saborear, o senhor Juarroz, quando ficava em casa com a janela aberta para ver e ouvir, com a mão direita encostada ao vidro para tocar, gostava ainda de beber um café bem quente e de cheiro intenso.

Como gostava muito de pensar o senhor Juarroz, quando ficava em casa, com a janela aberta, e com a mão esquerda encostada ao vidro, a beber um café quente, perdia-se nos seus pensamentos e, assim, quando a sua esposa lhe perguntava o que vira e ouvira da janela, o senhor Juarroz não sabia o que responder porque não se lembrava de nada. E apenas uma chávena de café vazia provava algo: ele bebera, de fato, o café.

O senhor Juarroz pensava muitas vezes que o mundo seria mais físico se as coisas vistas ou ouvidas também deixassem, no fim, uma chávena de café vazia, de modo a provar à mulher que não perdia tempo, como ela o acusava. Mas depois de pensar nada se alterou, pois os pensamentos também não deixavam provas. Apenas o café, apenas o café – murmurava”.

TAVARES, Gonçalo. O senhor Juarroz. Pg 29 e 30.

Sob (re) sereno - livro de artista - pagina 1, 2 e 3



carimbo e nanquim sobre papel vegetal (14,5 x 10,5 cm)

continua...
(se quiser receber por correio um exemplar, mande email para mayraredin@gmail.com)

sábado, novembro 06, 2010

terça-feira, outubro 19, 2010

terça-feira, setembro 21, 2010

"Pequenos Tratados sobre"

Texto de Ana Luisa Lima sobre meu trabalho,

neste link:

http://analuisalima.wordpress.com/2010/09/21/pequenos-tratados-sobre%c2%b9/

Lá você encontra também outros textos escritos por ela.

sexta-feira, setembro 03, 2010

jornal açores brasil

Jornal/blog feito nos Açores com colaboração de brasileiros.

Voltado para a temática cultural, com ênfase à cultura açoriana, dentro e fora de portugal.

Nesse suplemento trabalhos em artes visuais de Mayra e Mayana Martins Redin.

Está aí no blog para download:

http://bureauca.blogspot.com/2010/08/suplemento-brasil-n-2-feedbr100-jornal.html

Os responsáveis pela edição do jornal no Brasil são Máximo Lamela Adó e Letícia Testa, do coletivo Cão Amarelo.


sexta-feira, agosto 06, 2010

Pour les dernières

acabar o que quase nem se começou.

amar o lugar. (só quando saímos para não mais voltar).

Perder. (nunca se é de todo afirmativo).

Ir embora dá vínculos.

No próximo inverno sentiremos frio na barriga quando o dia for bem cinza e o vento desembocar sabe-se lá de onde. Vou lembrar daqui.

Cada qual perdido,

na quadra,

na língua,

na ponta da frança.

Cada qual na sua ponta.

(no próprio próximo inverno)

quarta-feira, julho 21, 2010

terça-feira, julho 06, 2010

tem dias que eu decido,
mas não sou eu que
decido o dia
de si derado

sábado, julho 03, 2010

Um convite para compartilhar estrelas



A exposição Proposição para construção de mar e céu de estrelas, que acontecerá em novembro na Sala Dobradiça, convida a todos a enviar suas estrelas para a construção de um céu de papel.

Proposição para construção de mar e céu de estrelas nasceu da mistura de dois projetos: Um céu cheio de estrelas – ação poética proposta por Mayra Martins que desde 2008 recolhe desenhos de estrelas feitas em pedaços de papel para a construção de um céu de papel cheio de estrelas feito por diversas pessoas – e Só por ora um mar sem orla – como Talita Tibola chamou o conjunto das ações dispersas que envolviam as suas poesias.

Um céu cheio de estrelas procura fazer encontrar riscos feitos pelas mais diversas mãos costurando um céu de papel composto por pequenos universos distantes. É obra em rede que pretende habitar os diferentes tetos: teto de quarto, de galeria, de ponte…

Só por ora um mar sem orla fala de não estar nem aqui nem ali, fala de passagens e das pequenas moradas que construímos ao simplesmente passar.

Construir um mar como “ponto de repouso”, parecia o que o céu estava a esperar.


No processo para a materialização de duas pequenas imensidões, as duas propositoras, fisicamente distantes, procuram se encontrar e acabam encontrando Pedro Filho Amorim, músico e poeta que mora também distante, na Bahia, e que gosta dos jogos sonoros e palavreiros. O céu de estrelas e o mar sem orla, ao encontrar Pedro e seus acasos, encontraram também um jeito de construir um horizonte sonoro, delineado na escassez de informações, como o horizonte que é o fim ilusório do mar e do céu. Do jogo das distâncias entre Porto Alegre, Rio de Janeiro, e Salvador, forja-se o encontro das estrelas encomendadas do céu com a orla inexistente do mar, na construção dos fragmentos enviados por Mayra e Talita e recebidos por Pedro.


Propondo construir céu de estrelas e mar onde nenhum dos três agora está, a proposição faz dessa ausência a sua própria existência, procurando colecionar encontros na distância.


O céu de estrelas aguarda suas estrelas para crescer. Para compor com a gente neste encontro de distâncias, mande suas estrelas rabiscadas em pedaço de papel para:


Mayra Martins Redin

Rua Vasco da Gama, 277, Ap 402, Bairro Bom Fim, Porto Alegre / RS, CEP 90420 111,


Ou


Talita Tibola

Rua Duque de Caxias 1495/402, Bairro Centro, Santa Maria/RS, CEP 97015-190

e

Rua Sá Ferreira, 227/802, Copacabana, Rio de Janeiro


Ou entre em contato pelo e-mail:

construcaomarceu@gmail.com


No dia 10 de novembro de 2010, mar e céu de estrelas se encontrarão na exposição Proposição para construção de mar e céu de estrelas, na Sala Dobradiça em Santa Maria.

terça-feira, junho 15, 2010

das suavidades V

Se não quer deixar marca,
escreva:
"cuidado tinta fresca".

domingo, junho 13, 2010

Porto Alegre a pé

1) Dos gostos: Passa pela quitanda, lá, entre as laranjas, o “céu é bem doce”

2) Da fé: As pessoas foram despejadas do paraíso, mas entraram mesmo assim no reino de deus, que em frente à saída ficava. O reino de Deus, diz na porta, é para os que cansaram de sofrer. Se se paga por luz, e mesmo assim se é despejado do paraíso, porque não pagar para parar de sofrer?

3) Do medo: A cidade vira-se de costas para o rio. Rio-lago. Faz frio. A beira de qualquer água dá para o que não sabemos. Ainda como antigamente. Quase nada sabemos sobre as águas. A cidade virada de costas para o rio protege-se do inusitado.

4) Do amor: Há paredes que moram dentro de janelas. Através delas, das janelas, os tijolos das paredes observam de pé os tijolos das calçadas deitadas.

segunda-feira, junho 07, 2010

Resposta

YVES
because
Y ES

domingo, junho 06, 2010

sexta-feira, maio 28, 2010

palavras para acompanhar nascimento

dos abismos II

"tememos a morte, sim. mas nenhum medo é maior do que aquele que sentimos da vida cheia, da vida vivida a todo peito."

mia couto
antes de nascer o mundo


pra continuar a conversa que tenho sem nem mesmo saber com a aniversariante do dia

por Talita Tibola

Para May
Acordei com o vento gostoso
de outono a me lançar resquícios cintilantes.
Não tive dúvida nenhuma:
eram poeiras nostálgicas da menina cósmica a
iluminar minha vida.
por Fabio Parise

quinta-feira, maio 27, 2010

incorporando alguns elementos à consideração barthesiana sobre estar vivo

tenho medo e/ou desejo e/ou pressa,
logo existo

(com a ajuda de um amigo)

segunda-feira, maio 24, 2010

quarta-feira, maio 19, 2010

Com Vargas Llosa

Preâmbulo

Os cachorros fogem da tentação do impossível e encontram sempre uma impossibilidade repleta de pequenos possíveis. Na dúvida, comece pelas coincidências. O resto acontece.

Sobre vargas llosa poderia se chamar a vagarosa. Anos que quero. E agora? Por onde começar? Ou por onde continuar? De onde parei. Numa palestra sobre escrita, quem falou o nome Vargas Llosa? Lembro só que anotei, e se anotei, eu queria. Vou atrás de onde. Em quais anotações procurar? As de antes do ano passado com certeza. Do ano retrasado para trás. Assim não vai dar. A vagarosa. Deixou o tempo passar e ficou só o nome Vargas Llosa ecoando, ecoando, ecoando, vagarosa. Melhor continuar indo ao que interessa. Um livro dele. Não importa como o quis, mas como farei para tê-lo. Um livro inteiro devo ler. Essa é a regra que acabo de criar. E é assim que vou sabê-lo. Assim e somente assim. Por este único livro. Página por página. Este será Vargas Llosa para mim, a vagarosa. Agora é fácil. Nem tão fácil. Não, nada fácil. Que único livro será esse. Penso. Não conheço nenhum. Conheço, deve estar anotado, mas já tirei do caminho a possibilidade da tentativa de relembrar algo anotado. Uma vagarosa demora o suficiente para esquecer o que estava a procurar. Estratégia do rápido, para não perder o fio da meada, para não perder as vagas horas: Vargas Llosa mais perto é o da rede. E lá diz: ingressar. Posso entrar? Como escolher a obra sem abrir? Como entrar? Pelo nome. O nome que me chama: “a cidade e os cachorros”, cachorro combina com Vagarosa. Cachorro é vagaroso quando o interesse é preambular. Até para arrimar-se vai que vai, cheirando, arrastando, encostando. Talvez goste mais do preâmbulo que do deambular. Mas vamos lá que a regra foi adentrar, e disso de focar, cachorro também sabe e vagarosos fingem não saber mas, se você olhar direito, os vagarosos sabem bastante sobre caminhar. Claro que muito mais que sobre chegar. E nessa de caminho devagar querendo despistar, foge da regra e de repente decide espiar, como qualquer um que vai devagar espia, ou justamente vai devagar para espiar, e como um canino farejante espiante, acho um ensaio que vagarosamente faz abandonar, ou seja, desarrimar dos Cachorros e me leva para “La tentacion de lo imposible”. Pronto. Devagar fugiu da regra de um único Vargas Llosa, deixou os cachorros para trás (e talvez vagarosa tenha corrido um pouco e se adiantado para fugir dos cachorros) e o que encontrou? O preâmbulo do impossível: a tentação. A tentação é a carona dos que caminham devagar. Essa leva. Arrasta. Arrima por arrebatamento. É esse Vargas Llosa que eu quero. Até onde ele pode me levar nessa velocidade? É ensaio, leio. Aí não posso arrimar-me. Não por agora. E o nome já dizia dessa impossibilidade. Acho que gosto necessariamente em primeiro lugar dos preâmbulos, as tentações, que me jogam pra fora novamente da carona. De novo caminhar, de novo esticar o braço, novamente arriscar. Arriscar arrimar. Neste risco decido: o livro que encontrar na livraria mais próxima: “travessuras da menina má”. Gosto quando no título encontro qualquer coisa de meu. Não são as travessuras, neste caso> mas o Ma. Um apelido. Que é um nome. O meu nome pode ser o ponto de partida para uma pesquisa sobre qualquer coisa, já dizia o cineasta Alain Berliner. Convenceu-me. Viro o livro. Na contracapa o nome da personagem: lilly. Outro nome meu. É este aqui. Quanto tempo levarei para conhecer o meu Vargas Llosa?

De vagarosa para Vargas Llosa, foi-se uma folha.

terça-feira, maio 11, 2010

das suavidades IV

paradoxo é quando olhamos para os objetos do mundo e,

obsessivamente,

freqüentemente,

cotidianamente, passamos a nos perguntar:

como seria se?

Jardim das escolhas

Terra Una, mar/abr de 2010





sexta-feira, maio 07, 2010

Guarda chuva de filó

Terra Una, março de 2010.
Participação: Marcia Kneipp



quarta-feira, maio 05, 2010

das suavidades III

Poderiam ficar horas falando e ouvindo sobre todas as palavras que ficaram guardadas naqueles anos passados.

Mas horas não seriam suficientes. Precisariam de dias, meses, anos.

E se vivessem juntos, até morrerem, ainda assim não seria suficiente.

Acharam então que talvez não fosse necessário.

Mas não sem arrependimentos.

é a tentativa que faz uma vida.

o arrependimento é uma tentativa fora do lugar.

domingo, maio 02, 2010

quarta-feira, abril 28, 2010

terça-feira, abril 27, 2010

Intervenção no corredor do Instituto de Artes







Intervenção no corredor do Instituto de Artes,
por Everton Netto, Isabel Ramil, Fernanda Paganin, Mario Terrazas e Mayra Martins.
Fotografias de Mario Terrazas
Após decidir o tecido branco e translúcido, conversamos sobre o aspecto de desenho desta instalação. Imaginamos que sendo o corredor uma estrutura no espaço, pensamos que o pano (por manter de certa forma a cor das paredes e por preencher o espaço horizontalmente, assim como são os tetos e chãos de prédios) poderia compor com esta estrutura-corredor re-desenhando este lugar, criando uma linha de corte que divide o espaço em dois, mas também criando blocos de estruturas dependendo de onde se olha. O corredor olhado de fora, antes de entrar, pode ser entendido como uma janela, um recorte, uma moldura, um enquadramento, e o pano, cortando esta paisagem, remodela o desenho.



segunda-feira, abril 26, 2010

das suavidades

ele é ávido
ela, sua(ve):
a suá vida

quinta-feira, abril 22, 2010

quarta-feira, abril 21, 2010

terça-feira, abril 20, 2010

pouco antes de ir

para os amigos novos e do futuro...

Ana, Carol e Jean

domingo, abril 18, 2010

sábado, abril 17, 2010

sob (re) sereno

03h20 min

sob (re) sereno

23h 50 min

sob (re) sereno

Observatorio de sereno

A estrutura foi construída a partir de quatro suportes de metal (com função de suporte para caixa de abelha mas fora de uso). O uso do filó (tecido que possui fissuras) fala da poética da observação/olhar de detalhes efêmeros da natureza. Esta poética trata de algo que não se vê com claridade. Ao tentar registrar as etapas da formação do sereno, percebe-se a fragilidade dos métodos para descobrir o momento certo em que ele se forma. Não se trata de um fenômeno que acontece frente aos seus olhos de forma clara, por isso a escolha pelo uso do filo. As fissuras deste tecido conversam com a efemeridade do sereno ao se formar sob(re) um objeto. A construção de um observatório para realizar esta ação também fala da aposta no olhar. Trata-se de olhar e de convidar a olhar e não “pegar”, “apropriar”. De qualquer forma não deixa de ser uma ação que precisa do corpo para que aconteça. O corpo de quem se propõe a experienciar, o corpo do artista que registra.

Tal construção / intervenção deste observatório e ação de observação e registro aconteceu na cidade de Liberdade, em Minas Gerais, em Terra UNA, como o desenvolvimento do projeto para o qual fui selecionada no Prêmio Interações Florestais 2010.


quinta-feira, abril 15, 2010

da(s) viagen(s)

fiz uma viagem só

uma viagem só
(não a mesma)

terça-feira, abril 13, 2010

3 constatações de volta

1) são só alguns quilômetros, mas imagine a sensação do tempo que leva para atravessar o oceano.
2) é forte voltar depois de:
- um dia intenso
- o vento, agora sinto o vento
- confundir se
3) a gente cria frente as impossibilidades do desejo.
A gente cria porque deseja.
Criamos pequenas possibilidades

quinta-feira, abril 08, 2010

caro distante

Para chegar até aqui eu decidi escolher um meio de transporte mais lento.
Entre eu e tu, tudo estava muito próximo.
A medida em que o tempo passava, tão lentamente, você sumia.
Agora que já estou aqui, depois de optar pelo caminho mais lento, pelo caminho onde a superfície do que me transportava tocava a terra (assim podia sentí-la indo-se atrás dos meus pés), descobri que:
nem bem parti e já estou tão longe de ti, caro distante.

domingo, março 07, 2010

entre uma despedida e Liberdade
existe uma estrada.

entre tudo
e o que ainda é
quase nada.

sexta-feira, março 05, 2010

ela e ele e a rua dele (s)

andou ainda onde não
e lá já

já antes
antes deste agora
tinha estado

e lá já
também neste agora do "dia destes"
tinha estado

ela e ele. na rua dele.

e aqui já agora
ela e a rua dele.
sem ele.

quarta-feira, março 03, 2010

poema de distância

quilômetros de palavras para te dizer que:
o cheiro é ainda de alecrim,
e a rua que era minha e tua
agora anda nua de mim.

segunda-feira, março 01, 2010

dia dela

ela
Lou
vestida de sim
amanhece o sol
com tinta esmalte carmin
louca de amor e
fim
nunca sem sorriso
pagode e
alecrim.

para bianca, essa linda, doce e forte, que ANIMA meus dias e dança nossas noites regadas a pequenas mentiras sinceras

domingo, fevereiro 28, 2010

minas por alguns dias

cachaça diária.
manhã cedo de pé.
sonhos de pé.
pão de queijo de pé, descalço.
café.
açucar no café.
e fé. ah fé,
o pé movido.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

haicai de chegada

a estrada é bonita
no mar de areia
sem jangada

sábado, fevereiro 20, 2010

haicai de início

na borda do mar
principia


precipício

haicai de verão

pinheiro inclinado
espera



precipitação

domingo, fevereiro 07, 2010

uma super-dose
derrama-me, se te vejo.
por enquanto,
transbordo aos poucos.
contenta-me você,
a conta-gotas.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

chuva de verão

C´est la pluie sur nous
ou sommes-nous nus?

domingo, janeiro 31, 2010

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Sans Vera

« Mon ami est parti
L’est parti pour toujours
(…)
Fais Battre Ton Tambour

(…)

Je sens les larmes qui montent
Mais je n'vais pas pleurer
Je sens ma peine qui gronde
Je vais la chanter

( …)

Je sens monter la colère
L’envie de crier

come on take my pain away

(…) »

Emily Loizeau


Ainda vou muito falar dela. No carro dela pensei que não interessa minha arte nem arte nenhuma. E compreendi. O corpo doente e completamente vivo. Não quer criar. Não sabe, não pode querer. E é tão vivo! A vida é ir ao mercado. Escolher gostos que apetecem. Mas o corpo tantas vezes não quer comer. A vida não é ter casa, objetos, decoração. A vida é permanecer o tanto mais que der. Isso serve para todos nós. Porque o corpo quer tanto. E eu já amo esse corpo, e eu já não posso sem ele, e eu já o vejo sempre vivo. Eu acompanho, gosto de viver ao lado. Ver viver isto que luta. Lutar é anterior a criar. Gosto agora da luta.

Ela descasca cebolas e chora. Eu choro. As cebolas choram. Nós as trituramos porque as odiamos aos pedaços. Odiamos tudo aos pedaços. Nós não as vemos diminuir porque temos lágrimas nos olhos. Nós as odiamos aos pedaços, mas não queremos vê-las tornarem-se caldo. Nem importam as cebolas mais.

Ela só quer algo para fumar para a dor passar. Eu só quero fumar com ela. Ela não está habituada à depressão, me disse. Esse desconhecido. Eu penso que a depressão é justamente questão de hábito. Mas ela fala neste desconhecido que incomoda. Quem é ele? Ou ela? Não, a depressão não mexe tanto, não vai ao mercado, não leva à Amsterdam, não ri com o corpo inteiro.

A depressão está no mesmo lugar. É alguém que é sempre este mesmo alguém. Mas ela não. Ela não é alguém.

Ela não é.

Está agora. E não queira saber depois. Simplesmente não queira.

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26 de outubro de 2009

O câncer é sempre de todo mundo.

Ela está triste

Eu estou triste

A casa está triste.

E a gente espera ele parar, o câncer,

Para amanhã tentar de novo.

E ela alegre

Eu alegre

A casa alegre.

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Escrevi estes dois textos quando conheci Vera. Enquanto convivia com ela. Ela viajava, e eu só. Ela estava, a casa cheia. Cheia de tudo. Alegria e lagrimas e sono e insônia. Compreendidos no cheio. Jamais no vazio. O cheio, e a morte perto. Ignorada.

Vera saia, o vazio vinha.

Chamei estes textos de “Para uma amiga que nunca vai ler”. Jamais pensei que o motivo seria a partida. Eu não queria que ela lesse, porque era desimportante o que eu dizia. Era algo que eu escrevia como quem desenha estrelas incessantes num pedaço de papel rasgado: preenchendo o tempo, esperando que ele passe. E o tempo passava quando ela estava. Portanto o vazio era meu. Escritos vazios para o tempo que não passava quando ela não estava.

Mas dias atrás, (agora mês atrás), eu senti saudades e quis tanto que ela lesse e que soubesse da importância da sua existência para mim.

A Vera gata do Caetano. A leonina ascendente gêmeos que em cinco minutos invadiu a casa e a vida, a minha, olhou meus olhos, com seus olhos rápidos e sempre atrasados para um novo olhar. Passou rápida e forte. Para tudo e qualquer coisa: champagne as 10 da manhã, de Marnay à Amsterdam...

“Não tem coisa melhor que fazer coisa chata junto” ela disse descascando cebolas. Nós não sabíamos se estávamos rindo ou chorando.

2 meses de cebolas, invenção de cardápios, arrumação da mesa, choro incontido dentro do carro num estacionamento qualquer, tudo porque era a coisa mais prazerosa do mundo fazer coisa chata junto com ela. A Vera.

Mas ela não estava mais para ler meus textos vazios. E Ainda escrevo.

Ela lia mal. Não sei se não queria ou se não podia. Rápida, nervosa atrás dos óculos, que ficaram na casa. Agora na minha. “eles não importam, mas os traga”. Eles eram a boa desculpa para o reencontro, disse ela sobre eles. Mais um objeto desimportante aos seus olhos.

Se houvesse o encontro, ela usaria os óculos e leria ansiosa os textos que fiz. Mas disso tudo, os óculos e textos continuam sem importância. Só do encontro. Não abriria mão. Ela também não.

Seria um encontro daqueles mais despreocupados, leves, sem importância, mas inesquecível. Como qualquer 5 minutos que passei com ela durante os dois meses na casa.

.........................

12 de dezembro de 2009

Na casa ficaram os óculos.

E quem precisa de precisão?

Na casa ficou a prescrição.

E quem precisa de prescrição?

Eu não preciso de previsão

Eu não uso mais os óculos

Eu não leio o prescrito

Eu só insisto

Nela.

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15 de dezembro de 2009

Ela canta

Os lírios renascem / os lírios vêm

Perfume de quem se foi

...

Ela canta

Os lírios renascem

Perfume da Vera.

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Mon amie, je pense toujours à toi.


segunda-feira, janeiro 25, 2010

sobre bolsos

Virginia Woolf
no mar
tinha os bolsos
mas não as pedras

voltaram cheios de areia

"as palavras são como bolsos, ora carregam uma coisa, ora outra",
escutou-se dizer

"os bolsos furam"
esvaziou-se ao vento.

sábado, janeiro 23, 2010

esperando Jorge

eu te espero
eu espero
que tu venhas com as flores do campo

que venhas

eu quieta
com as palavras
todas elas
que você as tenha

na lapela

uma flor do campo, amarela

talitamayra

nos nossos "as"
aliterados
tali ela
em mim
a yr,
ma petite

estão ali
todos nossos "as":

em vão acostumar.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Dentro da Rua Grande







montagem de expo no CAMAC OPEN STUDIO
novembro de 2009, Marnay-sur-Seine, France



quinta-feira, janeiro 14, 2010

cortinas

Eu digo para ela que utilize toda aquela neve como
cobertor de vista.
Assim como fizemos com o mar naquele dia.
Acobertando as insistências da visão.

e tudo ficou tão claro.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

para mim, num dia que se queria qualquer

É claro que existem coisas que nos doem as vistas de tanto que choramos quando elas insistem em permanecer. E daí a gente chora no banheiro e não vê perspectiva, porque os olhos estão inchados, há horas, por inundação e também por falta de querer ver de novo de qualquer jeito ou de um jeito mesmo qualquer.

Daí é claro que não nos imaginamos nas próximas 24 horas olhando para fora como quando se olha num dia qualquer, enxergando tudo sem enxergar, e indo para qualquer lugar que já estava previsto ir, seja encontrar um amigo e cuidar dele e comer com ele como ontem ou como amanhã, ou então ler o livro que se tem que ler, lendo assim como quando se olha para fora num dia qualquer, enxergando as letras todas juntas formando frases e compreensões, tudo sem enxergar. Seja nada, seja vasculhar nada para fazer, que isso também, num dia qualquer se torna normal, pertence às ações que fazemos sem enxergar direito e é assim que parece tudo claro nesses dias.

Mas é claro, que hoje não foi um dia qualquer, e é por isso que nada é claro, e foi por isso que eu chorei no banheiro, e outras pessoas tb choraram, cada uma no seu, e passei a enxergar quase tudo com os olhos inundados de dias de antes e de dias que vêm. É claro, é uma clareira. Nada é claro e tudo nos cega nesse dia. Pra amanhã eu olhar pra fora e quase não enxergar de tanto que amanhã vai fazer parte de mais um dia qualquer. Me faço essa promessa.

domingo, janeiro 10, 2010

quarta-feira, janeiro 06, 2010

para o ano que vem

rápido e rasteiro veio o poema.
assim também veio o primeiro minuto do ano novo que veio.
vieram as letras todas descobertas na casa,
entre cheiro de pão de queijo
e cheiro de livrerdade.

nada mais rápido e rasteiro que amigos antigos
num ano que vem, rápido e rasteiro.
de arrastar na areia
levados pelo rápido mar
que nos deixou restos
e rastros
que desejam se rastrocosturar
do jeito que der
pode até ser num aniversário
que começa em maio e não tem mês para terminar

para o que vier, desejo rápido e rasteiro,
esse poema arrastado, dançado até no silêncio
das proibições sonoras:

"Rápido e rasteiro
Chacal
Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir para parar.

aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida."

para os amigos deste ano novo,
pela dança e pelos sapatos tirados

domingo, dezembro 27, 2009

besoin

Minha boca falando boca
Na sua nuca nua
minha boca no ar
Sussura nuca
Não nunca
Querendo te alcançar
No ar
Entre tua nuca e
minha boca nua
eu sei dessa verdade
das incertezas,
que elas são incontroláveis,
inexistentes
as verdades.
eu sei.
ainda assim não durmo ao som do primeiro silêncio noturno.
silêncio para os olhos.
tenho medo desses olhos que não escutam.
mesmo sabendo da verdade das incertezas.
não queira saber.
tenho medo do que eles não escutam, os olhos.

nunca vou superar a noite.

domingo, dezembro 20, 2009

não querer aniversário.
não querer aprisionar.
querer ficar perto, muito perto, sem ser julgada.
medo de voar de tão leve.
medo do tombo de quem voa leve.
medo de ser óbvia.
medo de não estar sendo óbvia.
impaciência.
corpo que não esconde.
não aguenta sentado.
tomba a cabeça com sono para o lado.
foge. pisa em ovos. quebra pratos.