domingo, janeiro 31, 2010

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Sans Vera

« Mon ami est parti
L’est parti pour toujours
(…)
Fais Battre Ton Tambour

(…)

Je sens les larmes qui montent
Mais je n'vais pas pleurer
Je sens ma peine qui gronde
Je vais la chanter

( …)

Je sens monter la colère
L’envie de crier

come on take my pain away

(…) »

Emily Loizeau


Ainda vou muito falar dela. No carro dela pensei que não interessa minha arte nem arte nenhuma. E compreendi. O corpo doente e completamente vivo. Não quer criar. Não sabe, não pode querer. E é tão vivo! A vida é ir ao mercado. Escolher gostos que apetecem. Mas o corpo tantas vezes não quer comer. A vida não é ter casa, objetos, decoração. A vida é permanecer o tanto mais que der. Isso serve para todos nós. Porque o corpo quer tanto. E eu já amo esse corpo, e eu já não posso sem ele, e eu já o vejo sempre vivo. Eu acompanho, gosto de viver ao lado. Ver viver isto que luta. Lutar é anterior a criar. Gosto agora da luta.

Ela descasca cebolas e chora. Eu choro. As cebolas choram. Nós as trituramos porque as odiamos aos pedaços. Odiamos tudo aos pedaços. Nós não as vemos diminuir porque temos lágrimas nos olhos. Nós as odiamos aos pedaços, mas não queremos vê-las tornarem-se caldo. Nem importam as cebolas mais.

Ela só quer algo para fumar para a dor passar. Eu só quero fumar com ela. Ela não está habituada à depressão, me disse. Esse desconhecido. Eu penso que a depressão é justamente questão de hábito. Mas ela fala neste desconhecido que incomoda. Quem é ele? Ou ela? Não, a depressão não mexe tanto, não vai ao mercado, não leva à Amsterdam, não ri com o corpo inteiro.

A depressão está no mesmo lugar. É alguém que é sempre este mesmo alguém. Mas ela não. Ela não é alguém.

Ela não é.

Está agora. E não queira saber depois. Simplesmente não queira.

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26 de outubro de 2009

O câncer é sempre de todo mundo.

Ela está triste

Eu estou triste

A casa está triste.

E a gente espera ele parar, o câncer,

Para amanhã tentar de novo.

E ela alegre

Eu alegre

A casa alegre.

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Escrevi estes dois textos quando conheci Vera. Enquanto convivia com ela. Ela viajava, e eu só. Ela estava, a casa cheia. Cheia de tudo. Alegria e lagrimas e sono e insônia. Compreendidos no cheio. Jamais no vazio. O cheio, e a morte perto. Ignorada.

Vera saia, o vazio vinha.

Chamei estes textos de “Para uma amiga que nunca vai ler”. Jamais pensei que o motivo seria a partida. Eu não queria que ela lesse, porque era desimportante o que eu dizia. Era algo que eu escrevia como quem desenha estrelas incessantes num pedaço de papel rasgado: preenchendo o tempo, esperando que ele passe. E o tempo passava quando ela estava. Portanto o vazio era meu. Escritos vazios para o tempo que não passava quando ela não estava.

Mas dias atrás, (agora mês atrás), eu senti saudades e quis tanto que ela lesse e que soubesse da importância da sua existência para mim.

A Vera gata do Caetano. A leonina ascendente gêmeos que em cinco minutos invadiu a casa e a vida, a minha, olhou meus olhos, com seus olhos rápidos e sempre atrasados para um novo olhar. Passou rápida e forte. Para tudo e qualquer coisa: champagne as 10 da manhã, de Marnay à Amsterdam...

“Não tem coisa melhor que fazer coisa chata junto” ela disse descascando cebolas. Nós não sabíamos se estávamos rindo ou chorando.

2 meses de cebolas, invenção de cardápios, arrumação da mesa, choro incontido dentro do carro num estacionamento qualquer, tudo porque era a coisa mais prazerosa do mundo fazer coisa chata junto com ela. A Vera.

Mas ela não estava mais para ler meus textos vazios. E Ainda escrevo.

Ela lia mal. Não sei se não queria ou se não podia. Rápida, nervosa atrás dos óculos, que ficaram na casa. Agora na minha. “eles não importam, mas os traga”. Eles eram a boa desculpa para o reencontro, disse ela sobre eles. Mais um objeto desimportante aos seus olhos.

Se houvesse o encontro, ela usaria os óculos e leria ansiosa os textos que fiz. Mas disso tudo, os óculos e textos continuam sem importância. Só do encontro. Não abriria mão. Ela também não.

Seria um encontro daqueles mais despreocupados, leves, sem importância, mas inesquecível. Como qualquer 5 minutos que passei com ela durante os dois meses na casa.

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12 de dezembro de 2009

Na casa ficaram os óculos.

E quem precisa de precisão?

Na casa ficou a prescrição.

E quem precisa de prescrição?

Eu não preciso de previsão

Eu não uso mais os óculos

Eu não leio o prescrito

Eu só insisto

Nela.

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15 de dezembro de 2009

Ela canta

Os lírios renascem / os lírios vêm

Perfume de quem se foi

...

Ela canta

Os lírios renascem

Perfume da Vera.

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Mon amie, je pense toujours à toi.


segunda-feira, janeiro 25, 2010

sobre bolsos

Virginia Woolf
no mar
tinha os bolsos
mas não as pedras

voltaram cheios de areia

"as palavras são como bolsos, ora carregam uma coisa, ora outra",
escutou-se dizer

"os bolsos furam"
esvaziou-se ao vento.

sábado, janeiro 23, 2010

esperando Jorge

eu te espero
eu espero
que tu venhas com as flores do campo

que venhas

eu quieta
com as palavras
todas elas
que você as tenha

na lapela

uma flor do campo, amarela

talitamayra

nos nossos "as"
aliterados
tali ela
em mim
a yr,
ma petite

estão ali
todos nossos "as":

em vão acostumar.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Dentro da Rua Grande







montagem de expo no CAMAC OPEN STUDIO
novembro de 2009, Marnay-sur-Seine, France



quinta-feira, janeiro 14, 2010

cortinas

Eu digo para ela que utilize toda aquela neve como
cobertor de vista.
Assim como fizemos com o mar naquele dia.
Acobertando as insistências da visão.

e tudo ficou tão claro.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

para mim, num dia que se queria qualquer

É claro que existem coisas que nos doem as vistas de tanto que choramos quando elas insistem em permanecer. E daí a gente chora no banheiro e não vê perspectiva, porque os olhos estão inchados, há horas, por inundação e também por falta de querer ver de novo de qualquer jeito ou de um jeito mesmo qualquer.

Daí é claro que não nos imaginamos nas próximas 24 horas olhando para fora como quando se olha num dia qualquer, enxergando tudo sem enxergar, e indo para qualquer lugar que já estava previsto ir, seja encontrar um amigo e cuidar dele e comer com ele como ontem ou como amanhã, ou então ler o livro que se tem que ler, lendo assim como quando se olha para fora num dia qualquer, enxergando as letras todas juntas formando frases e compreensões, tudo sem enxergar. Seja nada, seja vasculhar nada para fazer, que isso também, num dia qualquer se torna normal, pertence às ações que fazemos sem enxergar direito e é assim que parece tudo claro nesses dias.

Mas é claro, que hoje não foi um dia qualquer, e é por isso que nada é claro, e foi por isso que eu chorei no banheiro, e outras pessoas tb choraram, cada uma no seu, e passei a enxergar quase tudo com os olhos inundados de dias de antes e de dias que vêm. É claro, é uma clareira. Nada é claro e tudo nos cega nesse dia. Pra amanhã eu olhar pra fora e quase não enxergar de tanto que amanhã vai fazer parte de mais um dia qualquer. Me faço essa promessa.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

para o ano que vem

rápido e rasteiro veio o poema.
assim também veio o primeiro minuto do ano novo que veio.
vieram as letras todas descobertas na casa,
entre cheiro de pão de queijo
e cheiro de livrerdade.

nada mais rápido e rasteiro que amigos antigos
num ano que vem, rápido e rasteiro.
de arrastar na areia
levados pelo rápido mar
que nos deixou restos
e rastros
que desejam se rastrocosturar
do jeito que der
pode até ser num aniversário
que começa em maio e não tem mês para terminar

para o que vier, desejo rápido e rasteiro,
esse poema arrastado, dançado até no silêncio
das proibições sonoras:

"Rápido e rasteiro
Chacal
Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir para parar.

aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida."

para os amigos deste ano novo,
pela dança e pelos sapatos tirados