sexta-feira, novembro 30, 2007

diário de um paranóico

o silêncio. o que fazer com o silêncio?
se é com ele e por causa dele que começo a ouvir passos?
o silêncio é o escuro da voz... (o escuro. o que fazer com o escuro? se é com ele e por causa dele que começo a ver coisas? o escuro é o silêncio do olhar...),
mas, o silêncio. o que fazer com o silêncio?
até o infinito.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Escrevilendo Lautréamont ou de como perder a cabeça

Se isso me feriu.
Se isso ficou sem nome.
Se isso é um todo indizível, inescutável, intragável.
Se isso é tudo.
Se isso é, é isso.
É isso de que não se fala.
É isso que ninguém diz que é.
Esse monte de palavras cruas, doloridas, arriscadas.
Esse tanto de gestos, de fatos, de atos, de corpos.
Fazendo aquilo que se pensa, que se quer e que, por princípio, por convivência, se cala.
Esse tanto de palavras brutas, sujas, que eu não quero.
Eu não as quero ouvir.
Mas é assim.
Isso é, por princípio, assim.
Isso do não querer. Funciona assim.
Vem sem escolha, sem possibilidade para qualquer tipo de fuga ou de esconderijo.
É a escrita (e a leitura) que te guilhotina.
Você foi condenado.
Quando percebe já perdeu a cabeça.
E já fazem segundos isso.
E você nem sequer teve tempo para suspirar.
E agora já fazem minutos que você não tem mais a sua cabeça para dar conta disso que está lendo.
Você pensa (com o que ainda resta do pouco de razão que te sobrou - sem saber se isso é bom ou ruim, ainda):
"eu estava lá. Fui espiar e acabei morto. Não pude optar por não querer".
E Lautréamont diz:
"isso de querer é coisa que te colocaram na cabeça, por isso cortamos a tua cabeça".
Aí você entende que não tem mais volta.
E se não tem mais volta decide não voltar.
Na verdade você não decide nada porque acabou de ser morto por um Lautréamont que caiu não se sabe da onde e que você não viu pois estava com a cabeça coberta. Que em seguida foi arrancada, tirando-te de órbita, impedindo suspiros, palavras, ou qualquer outra coisa, como por exemplo, uma decisão.
Agora, já quase que se fecha uma hora desde que se deparou com isso.
Isso que leu, isso que tentas escrever, isso que matou tua possibilidade de verdade.
Uma brincadeira de mau gosto, alguns diriam.
Ou talvez um susto.
Daqueles que são como uma ferida.
Um susto que arde.
Poderia ser também um pacote de presente vazio.
Você abriu e encontrou: nada.
Então fechou.
E encontrou a forma que envolve o vazio.
Pareceu-te simples.
Simples como um susto: te pegaram desprevinido, você não teve tempo de pensar (perdeu a cabeça), sentiu-se ferido e ardido por alguns segundos, o coração bateu em contra-tempo, e o susto passou.
Mas você nunca mais será como era antes.
Simples.
Efêmero e indelével.
Ao mesmo tempo.
Aquilo que você jura não pensar, jura não existir, finge não acreditar, está ali.
Posto para sempre, irreversível (indelével), fugidio, escorregadio, e indizível (efêmero).
Se isso te feriu.
Isso que tentas parar de ler.
Que debocha de ti e de todo mundo.
Que queima todas as cartas que tu tinhas na manga para falar sobre.
Se isso se passa contigo.
Isso passa,
se passou por ti, já era.
Você já morreu.
E não sabe mais nada
(e espero que agora tenhas certeza de que isso é um bom sinal).
Afinal já passaram-se duas horas desde que você perdeu sua cabeça.